Modelo Kombucha
um experimento entre fermentação e aprendizado de máquina
Um modelo computacional treinado em uma única kombucha. Quando ela for descartada, o modelo é o que sobra.
Modelo Kombucha é um experimento na fronteira entre biologia, arte e aprendizado de máquina. Um SCOBY vivo é mantido em casa, alimentado com chá, e monitorado por sensores que registram pH, peso, espessura e temperatura ao longo de semanas. Esses dados — extraídos de um único organismo — são o corpus de treino de um modelo computacional minúsculo. O resultado: um modelo hiperespecializado em uma kombucha específica. Inútil para qualquer outra finalidade. Belo desperdício.
Sobre o projeto
Origem
O projeto nasce em diálogo com Peles Descartadas, obra-instalação de Guto que apresenta peles de kombucha curtidas presas a chapas metálicas perfuradas — denúncia, em matéria orgânica, do descarte do trabalhador industrial pela máquina. Modelo Kombucha avança um passo dessa denúncia: do plano industrial para o plano cognitivo. Se a primeira camada da obra é o operário trocado pela máquina, a próxima é o trabalho humano trocado pelo modelo — e os dados que alimentam esse modelo extraídos, como chá, do corpo que ainda fermenta.
O experimento
Um pote de vidro com kombucha em fermentação. Quatro sensores ligados a um Arduino: pH (a acidificação como narrativa química), peso (gramas de organismo se acumulando), altura (camadas de celulose visíveis), temperatura (saúde da colônia). A cada N minutos, um vetor de quatro números é registrado. Em uma semana, alguns milhares de amostras formam um corpus pequeno mas honesto. Um modelo simples aprende a prever a próxima medição com base no histórico. À medida que a colônia cresce, o modelo aprende a falar dela — e só dela.
O fechamento
No fim do ciclo, a kombucha é desidratada e entra para a série Peles Descartadas: presa em chapa metálica, na parede. O modelo, esse, é exportado para um pendrive. Etiqueta: checkpoint — última testemunha que sobrou da kombucha de [data] a [data]. O que o sistema preserva quando o corpo orgânico já foi para o lixo. Um embalsamamento digital. O sistema mata a fonte e fica com o registro.
Manifesto
Para manter uma kombucha viva, é preciso manutenção por chá. Para que um sistema de inteligência artificial funcione, é preciso dados como manutenção. A bactéria vai criando o SCOBY em camadas de celulose; os dados vão criando as camadas dos modelos. O paralelo é literal.
Mas há um contraste que importa, e que esse projeto quer tornar visível: a direção da nutrição. A kombucha alimenta quem cuida dela — devolve em chá. O modelo se alimenta de quem o usa — devolve em produtividade que, na ponta, descarta o próprio fornecedor de dados. Um vai da terra ao corpo. O outro vai do corpo à máquina.
Esse projeto não treina um modelo grande, útil, comercializável. Treina o oposto: um modelo cuja única fonte de verdade é uma colônia de bactérias e leveduras em um pote de vidro. Nada além disso. Um corpus de uma kombucha. Um aprendizado que não escala. Um checkpoint que, mesmo salvo, não é propriedade de ninguém.
A obra é sobre o que a gente extrai do que está vivo, e o que sobra quando a vida vai embora.
Como acompanhar
- Câmera
- Raspberry Pi 3B + Camera Module v2 (IMX219, 8 MP). Captura a cada 10 minutos.
- Iluminação
- Lâmpada AC chaveada por relé (módulo JQC-3FF-SD-Z, acionado por GPIO 4). Acende só durante a captura — entre uma foto e outra, a SCOBY fica no escuro.
- Análise atual
- Cor média RGB de cada imagem, computada por um indexador Python rodando em Docker no VPS, armazenada em SQLite e servida aqui em tempo real.
- Em desenvolvimento
- Temperatura (DS18B20), microfone eletreto para captação das bolhas de fermentação, eletrodos de grafite + INA128 + ADS1115 para o sinal bioelétrico.
- Sonificação (planejada)
- SuperCollider em renderização noturna (NRT), transformando o sinal bioelétrico do dia em uma composição ambient publicada aqui ao lado das fotos.
- Modelo
- Arquitetura pequena, treino contínuo no próprio corpus desta kombucha, sem nuvem.
- Código
- Aberto. Repositório no GitHub em breve.
Referências
Projeto Zoogleia — referência conceitual e fonte de inspiração para este trabalho.
Créditos
Conceito e curadoria artística: Augusto Batista (Guto)
Engenharia e dados: Lucas Vitti (www.lucas.mat.br)